Ortega Y Gasset
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Ortega y Gasset (1883 - 1955) foi um republicano numa Espanha monárquica da segunda década do século XX, e por isso, ligado à maçonaria e herdeiro do espírito revolucionário-maçónico que evoluiu da Revolução Francesa. Contudo, nas suas obras Gasset critica causticamente o Positivismo comtista e o Pragmatismo de origem americana. Por isso, dizer que Gasset foi um pragmatista ― na linha de Peirce ou mesmo de Unamuno ― é um erro; não faz sentido que sejamos algo que criticamos, a não ser que tenhamos dificuldades de raciocínio, o que não é o caso de Gasset.

“Con el simpático cinismo proprio de los ‘yankees’, proprio de todo pueblo nuevo ― un pueblo nuevo, a poco bien que le vaya, es un enfant terrible ―, el pragmatismo norteamericano se ha atrevido a proclamar esta tesis: ‘No hay más verdad que el buen éxito en el trato de las cosas.’ Y con esta tesis, tan audaz como ingenua, tan ingenuamente audaz, ha hecho su ingreso en la historia milenaria de la filosofía el lóbulo norte del continente americano.”

O mais que podemos dizer é que Gasset se aproximou do Existencialismo, mas não foi um existencialista no sentido do existencialismo materialista do século XX, porque Gasset colocou em causa ― com uma ironia devastadora ― a ciência, principalmente, a Física e a Biologia.

“El racionalismo de los últimos tiempos quiso hacerse ilusiones ― racionalismo es por su esencia misma un soberbio vivir de ilusiones ― de que cabría reducir a concepto, a lógos, el infinito matemático, y con Cantor amplió, soi-disant por pura lógica, la ciencia matemática extendiendo fabulosamente su campo, en atropellado imperialismo muy siglo XIX. ”

Existe em Gasset algo de místico e de metafisico que ele esconde, quase que por vergonha, embora ele acabe também por colocar em causa os místicos quando ataca o Idealismo e os herdeiros de Descartes.

"Es inútil que intentemos violentar nuestra sensibilidad actual, que se resiste a prescindir de ambas dimensiones : la temporal y la eterna. Unir ambas tiene que ser la gran tarea filosófica de la actual generación, para cual yo he procurado iniciar un método que los alemanes propensos a la elaboración de etiquetas me han bautizado con el nombre de ‘perpectivismo’” (…) “La ecuación más abstrusa de la matemática, el concepto más solemne y abstracto de la filosofía, el Universo mismo, Dios mismo, son cosas que encuentro en mi vida, son cosas que vivo.”

Porém, o seu “ataque” a Descartes não coloca em causa as ideias do francês, mas coloca-o no seu contexto histórico; Gasset reconhece que Descartes é essencial e necessário, desde que inserido no contexto da evolução do pensamento humano.

“La superioridad del idealismo procede de haber descubierto una cosa cuyo modo de ser es radicalmente distinto del que poseen todas las demás cosas. Ninguna otra cosa del Universo, aun suponiendo que las haya, consiste fundamentalmente en ser para sí, en darse cuenta de sí mesma.”

Neste sentido, Gasset padece da ideia modernista que defende uma evolução linear do Homem na História, ideia essa que marcou as correntes filosóficas a partir da esquerda hegeliana ― a ideia de que a dialéctica traz inexoravelmente o progresso da Humanidade. Sabemos que as coisas não são “linearmente” assim.

O liberalismo no dealbar do século XX foi marcado por essa ideia de linearidade revolucionária inerente à evolução histórica, característica republicana e maçónica, que Gasset adoptou. Os liberais espanhóis do início do século XX eram de uma esquerda libertária, detentores de uma mente revolucionária herdada das ideias radicais provenientes da Revolução Francesa que a maçonaria francesa teleguiou e transmitiu a toda a Europa do Sul.

“Eu sou eu e a minha circunstância”.

Esta frase de Gasset resume o indício do seu "existencialismo espiritual", e não um existencialismo materialista de Heidegger ou Sartre. Diria que existe algo do existencialismo de Kierkegaard em Gasset, embora sem o Cristianismo; retiremos o cristianismo a Kierkegaard e encontramos o existencialismo de Gasset: trata-se de um “existencialismo espiritual”, no sentido em que coloca o Homem no Universo, não meramente circunscrito a um determinado ambiente social ou reduzido a uma dimensão planetária.

Porém, a ideia da importância de “devir” de Gasset, inserido na existência do Homem como “um ser que não tem uma natureza, mas antes uma história”, marcou o existencialismo materialista até Deleuze. Contudo, os existencialistas materialistas e naturalistas deturparam Gasset; a ideia de “devir” de Gasset não se verga ao determinismo das “coisas” que rodeiam o Homem ― como está implícito no existencialismo materialista ―, antes é o Homem que controla e dispõe das “coisas” que o rodeiam.


Vimos que Gasset não pode ser considerado um pragmatista e que o seu existencialismo não é propriamente materialista e cientificista, como foi o de Heidegger e Sartre, entre outros. A confusão que classifica Gasset como um pragmatista vem da fixação dele na questão da vida, a “necessidade de viver”, o que pressupõe a necessidade de acção. Contudo, dessa “acção” humana não extrai Gasset a verdade, como fazem os pragmatistas; a procura da verdade através da acção é eterna e nunca se completa.

Por mais que o tenha tentado, Gasset não pode fugir às teorias do seu tempo, e acabou por ser permeável ao materialismo dialéctico que surge da Esquerda Hegeliana. Porém, Gasset foi um filósofo heterodoxo, porque enquanto criticou o Cristianismo, nunca afirmou um ateísmo.

“Yo creo que el alma europea se halla próxima a una nueva experiencia de Dios, a nuevas averiguaciones sobre esa realidad, la más importante de todas. Pero dudo mucho que el enriquecimiento de nuestras ideas sobre lo divino venga por caminos subterráneos de la mística y no por las vías luminosas del pensamiento discursivo. Teología, y no éxtasis.”

Como se vê neste trecho de Gasset, a ideia de Deus não lhe era hostil. Contudo, criticou o Cristianismo:

“Pero qué ¿Dios ― el cristiano? Sí, el cristiano, sólo el cristiano. Pero ¿cómo, en el descubrimiento específicamente moderno de que brota, como de una simiente, toda la edad anticristiana, va a haber intervenido nominativamente el Dios cristiano? Esta posibilidad inquieta a los cristianos e irrita a los anticristianos, a los modernos. El cristiano es anti-moderno:se ha colocado comodamente, de una vez para siempre, frente y contra la modernidad. No la acepta. Es hija de Satán. Y ahora se le anuncia que la modernidad es un fruto maduro de la idea de Dios. Por su parte, el moderno es anti-cristiano, cree que la modernidad nace frente y contra la idea religiosa. Ahora se le invita a reconocerse, precisamente en cuanto moderno, como hijo de Dios. Esto irrita. Es trastornar los tópicos de la historia, es proponer un cambio de convicciones. El anti-cristiano y el anti-moderno no quieren esforzarse en cambiar: prefieren la inercia. Ser, lo hemos visto, es pura agilidad, movilización incesante. El anti-cristiano y el anti-moderno no quieren moverse, no quieren ser: por eso se contentan con anti-ser.”

Aqui, Gasset critica o cristão e o modernista. Acusa-os de inércia, a uns e a outros. Convida os cristãos a abraçar a modernidade, e os modernos a compreender o Cristianismo. Porém, temos que compreender que Gasset viveu na primeira metade do século XX, e embora tivesse assistido às hecatombes sociais que o modernismo trouxe à humanidade, não poderia deixar de alinhar com as teorias materialistas que o modernismo trouxe sob pena de ser colocado à margem do pensamento do seu tempo. A este convite aos cristãos para abraçar a modernidade, teve como resposta a Teologia da Libertação de Bonhoeffer.

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