Método Hipotético - Dedutivo

O modelo hipotético-dedutivo (método de conjecturas e refutações)

A ideia aceite de que a base da Ciência residia no método indutivo foi categoricamente rejeitada por Popper.

Para o filósofo, " a lógica indutiva é um projecto inexequível".[1]

Afirma o primado da teoria sobre a observação.
Rejeita a indução por não haver justificação lógica para as inferências indutivas, afirmar que: " Todos os cisnes são brancos" , significaria observar todos, sem excepção, os cisnes existem, existiram e existirão. A teoria que defende opõem-se à lógica indutiva e poderia ser chamada teoria do método indutivo de prova.
O método utilizado (hiptético-dedutivo - conjecturas e refutações) pode ser dividido em três pontos fundamentais:
1. Formulação da hipótese (uma conjectura), que surge por raciocínio criativo ou abdução e não indutivo.
2. Dedução das consequências preditivas - depois de formuladas as hipóteses deduzem-se as consequências das mesmas; e finalmente a experimentação - a hipótese é testada, sendo que os resultados da experiência podem confirmá-la ou refutá-la. Se as consequências respondem positivamente, a teoria é provisoriamente aceite (apenas porque não foi possível refutá-la - é o que Popper chama de falsificabilidade), se respondem negativamente, a teoria é rejeitada. Quando a teoria resiste às provas e não foi suplantada por outras diz-se que foi corroborada. Substitui o critério de verificabilidade pelo de falsificabilidade.

Popper considera que, por maior que seja o número de observações particulares, não há justificação lógica para a sua generalização a todos os casos. Há sempre a possibilidade de factos ainda não observados do passado ou factos futuros virem a contradizer a conclusão.

" Um cientista, seja teórico ou experimental, formula enunciados ou sistemas de enunciados e verifica-os um a um. No campo das ciências empíricas, para particularizar, ele formula hipóteses ou sistemas de teorias e submete-os a teste confrontando-os com a experiência, através de recursos de observação e experimentação. (…)

Segundo concepção amplamente aceite(…), as ciências empíricas caracterizam-se pelo facto de empregarem os "métodos indutivos" (…). Ora, está longe de ser óbvio, de um ponto de vista lógico, haver justificação para inferir enunciados universais de enunciados singulares, independentemente de quão numerosos sejam estes; com efeito, qualquer conclusão obtida desse modo pode sempre revelar-se falsa: independentemente de quantos casos de cisnes brancos possamos observar, isso não justifica a conclusão de que todos os cisnes são brancos.

A questão de saber se as inferências indutivas se justificam, e em que condições, é conhecida como o problema da indução. O problema da indução também pode ser apresentado como a indagação da validade ou verdade de enunciados universais que encontrem base na experiência, tais como as hipóteses e os sistemas teóricos das ciências empíricas. (…)
Se desejarmos estabelecer um meio de justificar as inferências indutivas, deveremos, antes de tudo, procurar determinar um princípio de indução. (…)

A teoria (…) opõem-se frontalmente a todas as tentativas de utilizar as ideias da lógica indutiva. Ela poderia ser chamada de teoria do método dedutivo de prova, concepção segundo a qual uma hipótese só admite prova empírica - e tão-somente após ter sido formulada. (…)
Afirmei anteriormente que o trabalho do cientista consiste em elaborar teorias e em pô-las à prova. (…)

A partir de uma ideia nova formulada conjecturalmente e ainda não justificada de algum modo - antecipação, hipóteses, sistema teórico ou algo análogo -, podem tirar-se conclusões por meio de dedução lógica. Essas conclusões são em seguida comparadas entre si com outros enunciados pertinentes, de modo a descobrir-se que relações lógicas( equivalência, dedutibilidade, compatibilidade ou incompatibilidade) existem no caso.

Poderemos, se quisermos, distinguir quatro diferentes linhas ao longo das quais se pode submeter à prova uma teoria. Há, em primeiro lugar, a comparação lógica das conclusões umas às outras, com o que se põem à prova a coerência interna de um sistema. Há em segundo lugar, a investigação da forma lógica da teoria com o objectivo de determinar se ela apresenta o carácter de uma teoria empírica ou científica, ou se é tautológica. Em terceiro lugar, vem a comparação com outras teorias, com o objectivo, sobretudo de determinar se a teoria representa um avanço de ordem científica, no caso de passar satisfatoriamente as várias provas. Finalmente, há a comprovação da teoria por meio de aplicações empíricas das conclusões que dela se possam deduzir.

A finalidade desta última espécie de prova é verificar até que ponto as consequências da teoria (…) respondem às exigências da prática, suscitada quer por experimentações puramente científicas, quer por aplicações tecnológicas práticas.

Aqui também o processo de prova mostra o seu carácter dedutivo. Com o auxílio de outros enunciados previamente aceites. (…) são deduzidas da teoria previsões susceptíveis de serem submetidas facilmente a prova ou previsões aplicáveis na prática(…) A seguir, procura-se chegar a uma decisão quanto a esses (e outros) enunciados deduzidos, confrontando-os com os resultados das aplicações práticas das experimentações.

Se a decisão for positiva, isto é, se as conclusões singulares se mostrarem aceitáveis ou comprovadas, a teoria terá, pelo menos provisoriamente, passado pela prova: não se descobriu motivo para rejeitá-la. Contudo, se a decisão for negativa, (…) esse resultado falseará também a teoria da qual as conclusões foram logicamente deduzidas.

Importa acentuar que uma decisão positiva só pode proporcionar alicerce temporário à teoria, pois subsequentemente decisões negativas sempre poderão constituir-se em motivo para rejeitá-la. Na medida em que a teoria resista a provas pormenorizadas e severas, e não seja suplantada por outra, no curso do progresso científico, poderemos dizer que ela "comprovou" a sua qualidade ou foi "corroborada" pela experiência passada.

Nada que lembre a lógica indutiva aparece no processo aqui esquematizado. Nunca suponho que possamos sustentar a verdade de teorias a partir da verdade de enunciados singulares. Nunca suponho que por força de conclusões "verificadas", seja possível ter por "verdadeiras" ou mesmo por meramente "prováveis" quaisquer teorias".

POPPER, Karl. Lógica da Pesquisa científica, secções 1 e 3. São Paulo, Cultrix

Editado por Alda Martins


Bibliografia
1. Pereira, Júlio, Epistemologia e Liberalismo: Uma Introdução à Filosofia de Karl Popper, Porto Alegre: Colecção Filosofia - 9
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