Interpretação

Interpretação

  • Do latim interpretari, explicar, traduzir, tomar neste ou naquele sentido.

"Interpretar" pode ser interpretado basicamente em três sentidos:

  1. tornar claro, encontrar um sentido escondido1, hermenêutica;
  2. Deformar, desfigurar2;
  3. abordar uma obra de maneira a exprimir-lhe sentido; exegese.

Gadamer defendeu a ideia segundo a qual o acto de compreender comporta três momentos: a apreensão da ideia original ou compreensão propriamente dita, a interpretação, e a aplicação.

Por exemplo, segundo Gadamer, podemos compreender o conceito de “virtude”, segundo Aristóteles, e conforme a sua ideia original. Depois, interpretarmos (à nossa maneira) esse conceito original, mesmo deturpando-o ou desfigurando-o, de forma "nova" e "diferente", a cada instante e conforme ao espírito de cada época. E finalmente podemos aplicar e adaptar, a cada situação concreta, essa interpretação.

Segundo Gadamer, os três momentos — compreensão, interpretação e aplicação — são indissociáveis porque não pode existir compreensão sem interpretação, na medida em que a significação que podemos deduzir no fim de uma investigação nossa, encontra-se também no princípio da investigação, devendo o investigador antecipar sempre a significação consoante os seus interesses privados e as suas escolhas pessoais.

Esta opinião de Gadamer é polémica, senão mesmo incorrecta — porque significa a negação da lógica quando transforma o conhecimento em um resultado de Petitio principii e de um Circulus in demonstrando.


Sobre o conceito de “interpretação” segundo Gadamer, Fernando Pessoa opõe os conceitos de “estranheza e novidade”:

A novidade, em si mesma, nada significa, se não houver nela uma relação com o que a precedeu. Nem, propriamente, há novidade sem que haja essa relação. Saibamos distinguir o novo do estranho — o que, conhecendo o conhecido, o transforma e varia, e o que aparece de fora, sem conhecimento de coisa nenhuma.

Entre os escritores que descendem com novidade da velha estirpe, e os que aparecem por novos por pertencer a uma estirpe incógnita, há a mesma diferença que há entre o homem que nos dá uma sensação de novidade por frases novas que diz, e o que nos dá uma sensação de novidade por, falando mal a língua, nos dizer estropiadamente qualquer frase dela. (Fernando Pessoa, “Prosa”, de Ricardo Reis)

Portanto, a interpretação de uma ideia original não pode ser “nova” no sentido em que se desliga, total ou parcialmente, da intenção dessa ideia original. Por exemplo, não é legítimo nem racional que se interprete a Bíblia num sentido oposto ou contraditório em relação às ideias originais nela expressas.


Editado por (OBraga)

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